Difícil de acreditar, mas 13 Reasons Why conseguiu render 4 temporadas. Altamente criticada pelo público, imprensa especializadas, e especialistas da área da saúde, a série reuniu diversas polêmicas ao longo de seus quatro (e longos) anos, ao mesmo tempo em que tentava fazer um bom trabalho trazendo à tona temas relevantes.
A falta de cuidado que os roteiristas e a produção tiveram com a abordagem desses temas é debatida até hoje, por mais que tenham diminuído consideravelmente o número de cenas explícitas de violência física e sexual. Porém, o olhar mais atento a esse fator não se dirigiu também a irresponsabilidade com que os temas ainda são discutidos.

Desde a temporada anterior, a série passou por uma repaginada de tom, deixando a sensação de que não estamos mais vendo um programa que um dia procurou conscientizar os espectadores sobre suicídio, abuso sexual e saúde mental, e sim um que parece mais preocupado em criar mistérios em cima de crimes.
A morte de Bryce Walker (Justin Prentice) poderia ter sido um tópico extremamente interessante caso fosse abordado da forma correta. 13 Reasons Why tentou manter a atenção do público restante se repaginando para tentar se encaixar no formato de série adolescente que mais faz sucesso atualmente. Riverdale e Elite são uma febre entre os jovens por terem esse mesmo foco de narrativa, mas, a grande diferença é que elas nunca se propuseram a ser algo diferente disso.
Nesta última temporada, a exaustão do roteiro é ainda mais perceptível. Um dos grandes erros da série era manter cada temporada com o mesmo número de episódios (13), com 1 hora de duração cada, para honrar o título. Não havia história para ser contada em tanto tempo. Entretanto, aqui as coisas mudam, e o número é diminuído para 10 episódios, mas que ainda parece muito para o conteúdo entregue.
O último ano se inicia com Clay (Dylan Minnette) e seus amigos sofrendo com a pressão e a culpa por terem culpado Monty (Timothy Granaderos) – que foi preso e morto na cadeia na temporada anterior – pelo assassinato de Bryce. Uma série de mensagens e ameaças anônimas surgem pela escola prometendo expor a verdade, ao mesmo tempo em que Winston (Deaken Bluman), ex-amante de Monty, surge para investigar o que realmente aconteceu, já que ele pode provar a inocência do garoto.
Uma maneira de enxergar a temporada é dividi-la em duas metades. A primeira é cansativa, repetitiva e extremamente sem controle de si mesma, enquanto a segunda se mostra mais interessante, abordando o que o público realmente gostaria de ver nesse ano final.
Os roteiristas tinham a importante missão de finalmente se aprofundar na saúde mental de Clay, mas perdem a mão ao não demonstrar o menor cuidado com o personagem e a construção que ele havia tido até ali. Clay está mais abalado do que nunca por tudo que aconteceu e ainda vêm acontecendo, sofrendo de alucinações constantes, crises de ansiedade e pânico, além de apagões que ele mesmo não se recorda de ter.

A saúde mental do personagem é algo que vêm deteriorando desde a segunda temporada quando ele, simplesmente, começa a conversar com o fantasma de Hannah Baker (Katherine Langford). A própria série diminui o fato dele conversar com os mortos – nesta temporada, ele tem diversas conversas com Bryce e Monty – fazendo com que o diagnóstico do personagem não chegue nem perto de considerar os maiores problemas que ele vinha sofrendo. Clay é internado no hospital apenas uma vez, e sua saída chega ser uma das partes mais risíveis da temporada.
Um dos pontos cruciais que fazem essa primeira metade ser uma bagunça completa, é a falta de foco nos personagens principais. Clay é o único que o roteiro se preocupa em acompanhar mais afundo, enquanto dá espaço, mais uma vez, para que novos personagens tomem conta da narrativa. A inserção de Winston poderia ter sido interessante caso o personagem não passasse a maior parte do tempo somente ameaçando o grupo principal, o que também pode-se dizer de Diego (Jan Luis Castellanos), que é o pior acréscimo da temporada. Dito como melhor amigo de Monty, é difícil comprar o personagem quando não havia nenhuma menção ou aparição dele anteriormente. Parece apenas uma maneira barata e desnecessária de separar Justin (Brandon Flynn) e Jessica (Alisha Boe).
É preciso mencionar o terrível episódio em que os adolescentes vão acampar, e são assombrados por uma pessoa (ou entidade?) desconhecida. Os roteiristas perdem completamente o controle ali, transformando a série em um terror adolescente trash, apenas para dizer que fizeram um episódio experimental. Destoa da realidade, e nos faz questionar o que estamos assistindo, além dos acontecimentos não chegarem a lugar algum.
SEGURANÇA ESCOLAR
A partir do sexto episódio, a série dá uma virada, e ganha força ao apresentar – mais um – episódio experimental, só que dessa vez, entregando algo que realmente vale a pena discutir. Se passando inteiramente dentro de um suposto ataque a mão armada na escola, o roteiro transita em diversos núcleos de personagens reagindo ao que pensam que pode ser o último dia de suas vidas. Necessário e pesado, o episódio discute o impacto que esse tipo de situação pode causar nos adolescentes, principalmente se tratando de algo que, infelizmente, é bastante comum nos Estados Unidos.

Tendo esse evento como o ponto de partida para que os alunos se revoltem contra as medidas de segurança tomadas pela escola, inicia-se uma série de discussões que vão desde xenofobia, até algo que está sendo bastante pautado atualmente, que é a violência policial contra manifestantes, pessoas de cor e de outra nacionalidade. Apesar da forma com que esses assuntos são abordados seja breve e sem muito aprofundamento, faltava coragem de 13 Reasons Why para, finalmente, discutir essa temática, ainda mais depois do ocorrido com Tyler (Devin Druid) no final da segunda temporada.
O salto de qualidade e o foco maior no desenvolvimento dos personagens principais são perceptíveis nessa segunda metade, porém o roteiro ainda mostra dificuldades em dar consequências aos acontecimentos principais. Se analisarmos mais a fundo, nenhum deles teve um real peso na narrativa. Cada um dos personagens está lidando com seus traumas de uma forma diferente, mas nenhum deles recebe a ajuda que precisa, fazendo com que a principal mensagem da série seja em vão.
Entretanto, os dois últimos episódios fazem valer a experiência. O desenvolvimento de Alex (Miles Heizer) descobrindo sua sexualidade é um dos mais satisfatórios de acompanhar. O crescimento dela durante a temporada, não só em relação ao modo como ele lida com a culpa de ter matado Bryce, mas também com suas inseguranças e como ele vai se entendendo e se aceitando como bissexual é o melhor entregue pelos roteiristas. O episódio do baile de formatura é o ápice do personagem, trazendo um sentimento recompensador depois de tanto sofrimento.
Tendo dito isso, a série chega ao derradeiro episódio final. Desde o início, é mostrado que um dos personagens havia morrido, mas, ao longo da temporada, o roteiro parece esquecer desse fato, entregando apenas breves cenas em um velório. Ao revelar a identidade do personagem e a causa de sua morte, é inevitável segurar as lágrimas, mesmo que seja perceptível a extrema tentativa de fazer o público chorar. O impacto é grande, mas conseguiria ser ainda maior se fosse desenvolvido desde o início da temporada.
13 Reasons Why não se encerra no seu auge, mas consegue finalizar uma jornada repleta de altos e baixos (mais baixos, na verdade), com um final satisfatório e emocionante. Não é o final que a série deveria ter, mas é bem executado considerando o estrago que tinha sido feito até ali. De saudade ela deixa apenas o carisma e o talento do elenco principal, que conseguiu carregar as 3 temporadas adicionais nas costas. De resto, o adeus é tardio, mas é dado com prazer.
