O Retorno de Mr. Robot 2×01/02

O aguardado retorno de Mr. Robot finalmente aconteceu. Com um episódio duplo e cuidadosamente construído, a série tratou de situar todas as personagens principais e introduzir estreias, para que possamos compreender o direcionamento da segunda temporada, após os eventos ocorridos no ano anterior.

As duas cenas que abrem o episódio eps2.0_unm4sk-pt1.tc apresentam bem o tom do que virá pela frente. A única aparição de Tyrell Wellick é muito bem executada a e a câmera viaja de um ponto do salão ao outro, mostrando ambos em uma sequência que culmina em Elliot Alderson em seu único momento “digital” neste início. Embora tenha tido uma certa calma na interação entre os dois, o clima é o mais soturno possível. O outro flashback apresentado segue o mesmo direcionamento e ai compreendemos um pouco mais do seu background, e que pode indicar um dos motivos para o seu distúrbio, tendo se originado a partir daquele trauma.

Sam Esmail, o criador da série, dirigiu e escreveu o episódio duplo e assim o fará pelo restante da temporada. Parece que como produtor, diretor e roteirista, ele tem nas mãos plenamente aquilo quer mostrar e continua a contar com elementos ousados e criativos, mesmo depois da grande revelação ocorrida. Muitas características que marcaram o debute da série também estão de volta, como a fotografia peculiar e os enquadramentos subvertidos de Tod Campbell; a trilha sonora nervosa e quase totalmente eletrônica de Mac Quayle e a adição de canções que surgem de maneira inusitada como Take Me Home do Phill Collins, quando Scott Knowles queima o dinheiro da E Corp, e na cena em que Elliot nos mostra a nova rotina ao som de Daydream´, na versão de Lupe Fiasco.

Elliot por sinal, após sua reprogramação analógica nunca esteve tão inexpressivo e nota-se desde o primeiro momento que algo está errado. A única coisa que é familiar para nós em seu novo mundo é Krista, visivelmente incomodada. Porém, Rami Malek dá um show quando no fim da segunda parte age de uma forma descontrolada e insana com Mr. Robot, interpretado mais uma vez com competência por Christian Slater. Suas interações são tensas, como na cena do tiro na cabeça, e o conceito de máscara apresentado foi muito interessante também. Nunca houve um momento tão confuso e louco na cabeça do protagonista, que passou os dois episódios tentando buscar o controle mas que ao saber de Ray (Craig Robinson) que continua agindo como seu, tem o start de que continua sendo burlado pela sua própria consciência.

É uma rotina que confunde a realidade e o abstrato e ele nem sabe mais o que é real. Sua busca por saber o que aconteceu nos três dias em que sumiu e o que houve com Tyrrell é sua obsessão, assim como se livrar do seu alter-ego, embora fique claro que este é um mal necessário ao seu “equilíbrio”. Seus momentos com Leon (Joey Bada$$) foram intrigantes e a gente se pergunta de onde surgiram estes personagens, em uma rotina que inclui anotações, o grupo de auto-ajuda e até mesmo sua mãe.

Ainda sobre a primeira parte, outra personagem que é mostrada pós eventos da revolução  é Darlene (Carly Chaikin). Em uma posição de liderança, ela a todo momento reforça que o mais importante é manter a conquista e alcançar mais resultados. Ao observarmos sua postura e expressão no season finale da primeira temporada, quando deu uma festa e sorria, agora vemos preocupação em seu rosto e uma certa dose de rancor pela ausência do irmão. As reflexões sobre vida, sociedade e tecnologia também continuam presentes na trama, e um dos exemplos podem se observados na adição de uma nova personagem, Susan Jacobs (Sandrine Holt), advogada da E Corp. A crítica ao mundo informatizado, através da pane de sua smart house, invadida pela Fsociety evidencia o frágil controle que a tecnologia pode nos proporcionar. Já alguns elementos que são jogados em tela como referência também reforçam a narrativa. No grupo da igreja, atrás de Elliot há uma faixa que entre outros dizeres, tem a seguinte frase: “Você não está sozinho”. 

Já na segunda parte em eps2.0_unm4sk-pt2.tc, quem retorna com apatia é Angela Moss (Portia Doubleday). Sua mudança de personalidade continua evidente, a medida que a confortável posição na E Corp parece lhe fazer bem. O momento mais sombrio é sem dúvidas quando ela repete um mantra arrepiante de palavras de auto-estima que contrastaram com sua  expressão fechada. Outro reaparecimento destacado neste segundo ato foi o de Joanna Wellick (Stephanie Corneliussen).

Com direito a sadomasoquismo, suas atitudes são tão intrigantes quanto sua pessoa, cuja participação na trama parece que ainda será explorada.  Já Phillip Price, com uma interpretação impecável de Michael Cristofer tem uma das melhores cenas do episódio, em uma reunião da empresa, mas as cenas de Gideon (Michel Gill) são igualmente ótimas, com destaque para sua conversa perturbadora com Elliot. Entretanto, é impossível não afirmar que sua morte foi um tanto quanto inesperada e construída de forma que pudesse chocar. Outra personagem que foi apresentada, DiPierro (Grace Gummer) não mostrou muito ainda, mas irá seguir os passos do hackeamento ocorrido, colocando o FBI como mais um elemento no jogo.

Diante de tudo que foi mostrado, Mr. Robot voltou de forma promissora e se mantiver o nível de seu retorno, certamente poderá nos entregar mais uma ótima temporada. É bem verdade que em termos práticos, a história não avançou muito, mas para efeito de ambientação foi um excelente cartão de visitas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *